terça-feira, 13 de março de 2012

O Filme 'Young Frankenstein' (br: O Jovem Frankenstein/pt: Frankenstein Junior), a Imagem do Cientista e os Rumos da Ciência





     Baseado no livro Frankenstein; or, The Modern Prometheus (1818) de Mary Shelley, Young Frankenstein (1974) é um filme estadunidense, do gênero comédia, que foi dirigido por Mel Brooks. O filme tem início com uma aula do Dr. Frederick Frankenstein (Gene Wilder), neto de Victor Barão von Frankenstein. Percebemos já nessa aula, que trata-se de um médico e professor universitário que defende acima de tudo a concepção da ciência voltada para a preservação e melhoria de vida. O professor Frankenstein não permite que lhe chamem pelo mesmo sobrenome do avô, dizendo se chamar Dr. “Frankenstin” e se irritando com quem ousasse dizer algo diferente. Isso porque renega ser neto de alguém que era tido como um louco e que, ao contrário dele, foi conhecido por roubar cadáveres para fazer experiências, com vistas à produção de vida artificial.  Entretanto, ao herdar o castelo de seu avô na Transilvânia, o médico será arrastado pelo mesmo caminho do seu ascendente, que é o de tentar promover a criação de um ser a partir de restos mortais humanos. Com muito humor, o filme mostra como o médico em questão chega a criar esse “monstro” (Peter Boyle). A comicidade das cenas é garantida pela presença de Igor (Marty Feldman), uma espécie de mordomo “faz tudo”, que é corcunda e vesgo, da assistente Inga (Teri Garr), que possui aparência bela, provocante e se envolve com o médico, além de Frau Blücher (Cloris Leachman), antiga serva de Victor Frankenstein, que passa a servir também o neto e é  tão assustadora que somente a  pronúncia do seu nome já causa sempre o relincho dos cavalos.

Após encontrar, na recôndita biblioteca de seu avô, o livro intitulado "How I did it"  (Como eu fiz), escrito pelo próprio, Frederick Frankenstein passa, então, a se dedicar incansavelmente à produção de um ser vivo a partir de tecidos inanimados seguindo os passos nele prescritos, pois, apesar de no início se mostrar cético quanto à teoria  e sentir vergonha de ter sua imagem relacionada  à de seu avô, ao ler avidamente o que é dito no livro percebe que aquilo pode funcionar. Depois de muito trabalho, finalmente, ele consegue seu objetivo da seguinte forma: com o cadáver de um homem de grande porte, um transplante de cérebro e uma grande descarga elétrica. Porém, algo muito importante sai errado: ao invés de colocar o cérebro de Hans Delbruck, considerado genial,  o professor implanta no cadáver um que é descrito como "anormal" e cuja etiqueta diz "Não utilize este cérebro!". Esse erro foi devido ao fato de que Igor fica encarregado de ir buscar o cérebro e acaba deixando cair o primeiro ao se assustar com a própria imagem refletida no espelho. Daí em diante, uma série de questões éticas emergem e a própria concepção de ciência pode ser questionada. A criatura do Dr. Frankenstein é retratada por vezes como um ser vítima de preconceitos e cuja violência é estimulada pela incompreensão das pessoas à sua volta. No mesmo contexto, o criador aparece no início como um cientista maluco e obcecado pela possibilidade de contrariar tudo que era defendido pelas teorias científicas à época e revolucionar seu campo de conhecimento, o que também é motivado por questões pessoais, já que seu avô havia passado pelos mesmos problemas e era instigado pela mesma vontade. Um ponto, talvez, negativo do filme seria exatamente retratar o cientista como um tipo excêntrico, demente, que por vezes reflete o estereótipo que muitos infelizmente ainda têm dos cientistas em geral, assim como a ideia de que a ciência é uma atividade feita por poucos indivíduos geniais, e não um empreendimento coletivo. Mas, por se tratar de uma comédia, isso logicamente tem de ser perdoado, ou antes: pode, ou é para ser tomado como o oposto, ou seja, uma crítica feita a essa opinião através do apelo à comicidade de tal estereótipo.
              
Ao longo do filme, vamos percebendo que essa imagem dá lugar à de um cientista que é homem antes de tudo, que tem compaixão pela dor dos outros e, portanto, não quer que sua criação seja usada para o mal nem que a própria criatura sofra a ira de pessoas que não conseguem enxergar o que está em jogo: a possibilidade de renascer após a morte.
 

Há muitas cenas de perseguição à criatura por parte da sociedade local, que via nela uma ameaça. Por isso, o cientista faz uma tentativa não muito bem sucedida de trocar seu cérebro com o do monstro, para ocupar o seu lugar e assim protegê-lo (isso acaba por  ser causa de algumas modificações físicas e nas personalidades de ambos, mas a troca não é, como queria, totalmente efetivada). A  situação somente se resolve quando todos percebem que a criatura era nada mais que uma vida que deve ser respeitada e que, na verdade, possui sentimentos como qualquer ser  humano.
 


 É importante se fazer notar que o nome do filme faz menção à própria criatura, que   passa a ser reconhecida pelo sobrenome de  Frederick Frankenstein. Isso reflete a identificação do cientista com sua criação e, também, algo que ao longo do filme vai ficando cada vez mais nítido: médico e "monstro"  acabam por possuir quase que uma relação de paternidade.  Penso que isso ocorre para chamar nossa atenção através dessa analogia (cientista - criação com pai e filho) para  ideia de que a atividade científica agora vem para artificialmente promover  aquilo que antes estava a cargo somente da natureza: dar vida a algo.
                     

Por tudo isso, o filme traz questionamentos sobre a própria natureza do homem, sobre suas finalidades, suas concepções éticas e o seu lugar na natureza. Além, é claro, de se tratar de uma crítica aos rumos da ciência: até que ponto a ciência pode chegar? Os limites são apenas de ordem cognitiva ou aí também se colocam problemas éticos, políticos, sociais? A ideia que parece ser veiculada quanto a essas questões é de que deve haver bastante cuidado por parte dos cientistas nas suas práticas, boa divulgação e cuidado também por parte da sociedade, que se pronuncia quanto à recepção dos “avanços” científicos. Também somos levados a pensar que, a cada época, novos problemas surgem e que, por isso, temos de refletir sempre e avaliar criticamente cada um deles, pois não temos respostas prontas para situações novas como a que é retratada no filme, que, apesar de fictícia, nos faz ver como um cenário de dúvida se instaura. Tudo isso é necessário para que, ao invés de promover o bem, a melhoria da qualidade de vida das pessoas, dentre outros fins dignos de defesa, a ciência não seja cada vez mais meio para conflitos e opressão.




Por Elba Oliveira